
Meu pai não disse nada, mas nunca vou esquecer a expressão dolorosa quando ele finalmente se virou e marchou de volta ao escritório. Eu o havia magoado. Embora tenha dito a mim mesmo que não queria aquilo, no fundo sabia que estava mentindo. Meu pai nunca mais tocou no assunto moedas. Nem eu. Isso se transformou em um enorme fosso entre nós, pois ficamos sem ter o que dizer um ao outro. Poucos dias depois, percebi que nossa única fotografia também havia desaparecido, como se ele acreditasse que mesmo o menor lembrete das moedas pudesse me ofender. Na época, provavelmente ofenderia. Apesar de eu ter presumido que ele havia jogado a foto fora, tal percepção não me incomodou em nada. Durante a adolescência, nunca cogitei entrar para o exército; isso nunca passou pela minha cabeça. Apesar de o leste da Carolina do Norte ser uma das áreas mais militarizadas do país – existem sete bases a poucas horas de carro de Wilmington – achava que a vida no exército era para fracassados. Quem queria passar a vida recebendo ordens de um bando de escovinhas escravos? Não eu, e quase ninguém mais da minha escola, exceto os caras do ROTC1. Em vez disso, a maioria dos bons alunos foi para a University of North Carolina ou a North Carolina State, enquanto os que não eram bons ficaram para trás, vagabundeando de um trabalho ruim para o outro, bebendo cerveja, saindo à noite e, sobre-tudo, evitando qualquer coisa que pudesse exigir um mínimo de responsabilidade. Eu fazia parte da última categoria. Nos dois anos após a formatura, passei por uma sucessão de empregos, trabalhan- do como garçom no Outback Steakhouse, rasgando canhotos de ingressos no cinema local, fazendo carga e descarga de caixas no Staples, cozinhando panquecas na Waffle House e trabalhando como caixa em lojas turísticas que vendiam bugigangas para quem não era da cidade. Gastei cada centavo que ganhei, nunca tive a ilusão de galgar a carreira gerencial, e acabei sendo demitido de todos os trabalhos que tive. Por um tempo, não me importei. Estava vivendo a minha vida. Era ótimo surfar até tarde e dormir, e como ainda morava em casa, minha renda não era necessária para coisas como aluguel, alimentação, seguro ou garantir meu futuro. Além disso, nenhum dos meus amigos estava melhor do que eu. Não me lembro de estar particularmente infeliz, mas depois de um tempo cansei daquela vida. Não do surfe – em 1996, os furacões Bertha e Fran atingiram a costa, e aquelas foram as melhores ondas do ano, mas de ficar no bar do Leroy depois do surfe. Comecei a perceber que todas as noites eram iguais. Beber cervejas e topar com algum amigo do ensino médio que perguntaria o que eu andava fazendo, eu perguntaria o que ele andava fazendo, e não é preciso ser nenhum gênio para perceber que nós dois estávamos no caminho mais rápido para lugar nenhum. Mesmo quando um deles morava sozinho – coisa que eu nunca fiz – não acreditava ao ouvi-los dizer que gostavam do trabalho com escavadeiras, como lavador de janelas ou no caminhão Porta Potti, pois sabia muito bem que nenhuma dessas era a profissão de seus sonhos. Posso ter sido preguiçoso na sala de aula, mas nunca fui burro. Namorei dezenas de mulheres durante esse período. No Leroy, sempre havia mulheres. Na maioria das vezes, eram casos passageiros. Usei mulheres e me deixei usar por elas, sempre resguardando meus sentimentos. Só meu relaciona- mento com Lucy durou mais do que alguns meses e, por um curto período de tempo antes da separação inevitável, pensei estar apaixonado por ela. Ela estudava na UNC Wilmington, era um ano mais velha do que eu e queria trabalhar em Nova York depois de se formar. “Eu gosto de você”, ela me disse na nossa última noite juntos, “mas nós queremos coisas di- ferentes. Você poderia fazer muito mais com sua vida, mas, por algum motivo, se contenta em simplesmente ir levando.” Ela hesitou antes de continuar. “Além disso, nunca sei como você realmente se sente em relação a mim.” Eu sabia que ela estava certa. Nunca disse a ela o quanto ela significava para mim. Algum tempo depois, ela embarcou em um avião sem se incomodar em dizer adeus. Um ano mais tarde, depois de conseguir o número com os pais dela, telefonei e conversamos por vinte minutos. Ela estava noiva de um advogado, disse-me, e iria se casar em junho próximo. O telefonema me afetou mais do que eu imaginava. Foi em um dia em que eu havia acabado de ser demitido novamente e tinha ido me consolar no Leroy, como sempre. A mesma turma de fracassados estava lá, e, de repente, percebi que não queria passar mais uma noite sem sentido fingindo que minha vida estava bem. Em vez disso, comprei seis latas de cerveja e fui me sentar na praia. Foi a primeira vez em anos que realmente parei para pensar no que estava fazendo com minha vida, e me perguntei se deveria aceitar o conselho do meu pai e arrumar um diploma universitário. Porém, fazia tanto tempo que eu estava longe da escola que a ideia me pareceu absurda e ridícula. Chame de sorte ou azar, mas logo em seguida, dois fuzileiros navais passaram por perto. Jovens e em forma, eles irradiavam confiança e calma. Disse a mim mesmo: se eles podem, eu também posso. Refleti a respeito alguns dias. No final, meu pai acabou influenciando minha decisão. Não que eu tenha conversado com ele sobre isso – nós não estávamos nos falando. Certa noite, quando ia buscar algo na cozinha, reparei nele sentado em sua escrivaninha, como sempre. Desta vez, porém, deti- me para estudá-lo. Seu cabelo era quase inexistente, e o pouco que restava estava completamente grisalho nas laterais. Em breve, ele se aposentaria, e de repente percebi que não tinha o direito de continuar sendo uma decepção depois de tudo que ele fizera por mim. Assim, entrei para o exército. Meu primeiro pensamento foi me alistar nos fuzileiros navais, pois era com quem eu tinha mais familiaridade. A praia Wrightsville sempre esteve repleta de soldados anônimos de Camp Lejeune ou Cherry Point, mas, quando chegou a hora, escolhi o exército. Achei que iria acabar com uma arma nas mãos em ambos os casos, mas o que realmente me fez decidir foi o recrutador dos fuzileiros navais estar almoçando e não poder me atender na hora em que che- guei, ao contrário do recrutador do exército – cujo escritório ficava do outro lado da rua. No fim, a decisão pareceu mais es- pontânea do que planejada, mas mesmo assim assinei na linha pontilhada concordando com os quatro anos de alistamento. Quando o recrutador bateu nas minhas costas e felicitou-me, comecei a me perguntar no que havia me metido. Isso aconteceu no final de 1997; e eu tinha vinte anos. O treinamento em Fort Benning foi tão horrível quanto eu imaginava. A coisa toda parecia destinada a nos humilhar e nos submeter a uma lavagem cerebral para seguir ordens, não importa o quão estúpidas, sem questionar, mas me adaptei mais rapidamente do que um monte de caras. Quando terminou, escolhi a infantaria. Passamos os meses seguintes fazendo simulações em lugares como a Louisiana e o bom e velho Fort Bragg, onde aprendemos basicamente a melhor forma de matar pessoas e quebrar coisas. Depois de um tempo, minha unidade, parte da Primeira Divisão de Infantaria – apelidada de “A Vermelha” –, foi enviada para a Alemanha. Eu não falava uma palavra de alemão, mas não importava, pois praticamente todos com quem tinha contato falavam inglês. O início foi fácil, mas então a vida militar realmente começou. Passei sete meses horríveis nos Bálcãs – primeiro na Macedônia em 1999, depois no Kosovo, onde permaneci até o final da primavera de 2000. A vida no exército não paga muito, mas considerando que não havia aluguel, despesas de alimentação e praticamente nada com que gastar meu salário, pela primeira vez passei a ter dinhei- ro no banco. Não muito, mas o suficiente. Passei minha primeira licença em casa, enlouquecendo de tédio. Na minha segunda licença, fui para Las Vegas. Um dos meus camaradas era de lá e três de nós fomos para a casa dos pais dele. Torrei praticamente tudo o que havia guarda- do. Na minha terceira licença, voltando de Kosovo, precisava desesperadamente de um descanso, e decidi voltar para casa, esperando que o tédio da estadia fosse suficiente para acalmar minha mente. Por causa da distância, meu pai e eu raramente nos falávamos ao telefone, mas ele me escrevia pontualmen- te no primeiro dia de cada mês. Não era como as cartas que meus amigos recebiam das mães, irmãs ou esposas. Nada mui- to pessoal, nada piegas, e nunca uma palavra sugerindo que ele sentia minha falta. Ele nunca mencionou moedas. Em vez disso, escrevia sobre as mudanças no bairro e sobre o clima. Quando escrevi contando sobre um violento tiroteio do qual participei nos Bálcãs, ele respondeu dizendo estar contente por eu ter sobrevivido, e nada mais. Pelo jeito como ele escre- veu a resposta, soube que não queria ouvir falar dos perigos que passei. O fato de eu estar em perigo o apavorava, então comecei a omitir as coisas assustadoras. Em vez disso, passei a contar como o trabalho de guarda era, sem dúvida, o mais chato já inventado no mundo, e que a única coisa emocionan- te que havia me acontecido nas últimas semanas foi tentar adivinhar quantos cigarros o outro cara do meu turno fumara em uma única noite. Meu pai acabava cada carta com a pro- messa de que iria escrever novamente em breve e, mais uma vez, o homem não me decepcionou. Há muito tempo percebi que ele foi um homem muito melhor do que jamais serei.
Eu amadurecera muito naqueles três anos. Sim, eu sei, sou um clichê ambulante – partir um menino, voltar um ho- mem e tudo o mais. Mas, no exército, todos são obrigados a amadurecer, especialmente se você está na infantaria como eu. Você é responsável por equipamentos que custam uma fortuna, as pessoas confiam em você e, se você estragar tudo, a pena é muito mais grave do que ser enviado para a cama sem jantar. Claro, há muita burocracia e tédio, todo mundo fuma, ninguém consegue terminar uma frase sem um palavrão, todos guardam revistas pornô debaixo da cama, e você tem de obedecer aos sujeitos do ROTC que acabaram de sair da faculdade e acham que peões como eu têm o QI dos neandertais. Mas é forçado a aprender a lição mais importante da sua vida: você tem de cumprir com suas responsabilidades e é melhor fazer direito. Quando recebe uma ordem, não pode dizer não. Não é nenhum exagero dizer que vidas estão em jogo. Uma decisão errada e seu amigo pode morrer. Este fato determina o trabalho no exército. Esse é o grande erro de muitas pessoas que questionam como os soldados conseguem por a própria vida em risco, dia após dia, ou lutar por algo no qual não acreditam. Nem todo mundo consegue. Já trabalhei com soldados de todas as vertentes políticas, conheci alguns que odiavam o exército e outros que queriam fazer carreira. Encontrei gênios e idiotas, mas quando tudo foi dito e feito, fazíamos o que fazíamos um pelo outro. Por amizade. Não pelo país, por patriotismo ou porque somos máquinas programadas para matar, mas por causa do cara ao seu lado. Você luta pelo seu amigo, para mantê-lo vivo, ele luta por você, e tudo no exército gira em torno dessa simples premissa. Mas, como disse, eu tinha mudado. Quando entrei no exército, era fumante e quase cuspi um pulmão durante o treinamento. Porém, ao contrário de praticamente todos na minha unidade, parei de fumar e não tocava em um cigarro havia mais de dois anos. Diminuí a bebida até uma ou duas cervejas por semana, e podia passar meses sem um gole. Minha ficha era impecável. Fora promovido de soldado a cabo e, seis meses depois, a sargento. Aprendi que tinha habilidade para liderar. Guiara homens em meio a tiroteios, e meu batalhão participou da captura de um dos mais notórios criminosos de guerra nos Balcãs. Meu comandante me recomendou para a Officer Candidate School (OCS)2, e eu tinha dúvidas se deveria ou não tornar-me oficial, pois às vezes isso significava trabalho interno e muita papelada, e não estava certo de que queria isso. Além do surfe, eu não fazia nenhuma atividade física antes de me alistar; quando tirei a terceira licença, havia ganhado vinte quilos de músculos e eliminado a gordura infantil do abdômen. Passava a maior parte do tempo livre correndo, lutando boxe e levantando peso com Tony, um marombado de Nova York que gritava quando falava, jurava que tequila era afrodisíaco, e era, de longe, meu melhor amigo na unidade. Ele me convenceu a tatuar os dois braços, igual a ele, e com o passar dos dias, a lembrança de quem eu tinha sido, se tornava mais e mais distante. Eu também lia muito. No exército, há muito tempo para ler, e as pessoas trocam livros o tempo todo ou os pegam emprestados na biblioteca até as capas ficarem gastas. Não quero dar a impressão de ter me tornado um intelectual. Não me interessava por Chaucer, Proust, Dostoievski ou qualquer outro escritor morto; lia principalmente mistério, suspense, livros de Stephen King e tomei gosto especial por Carl Hiaasen. Suas palavras fluíam facilmente e ele sempre me fazia rir. Acho que, se as escolas nos mandassem ler esses livros nas aulas de literatura, teríamos muito mais leitores no mundo. Ao contrário dos meus amigos, eu me esquivava de qualquer perspectiva de companhia feminina. Soa estranho, não? No auge da idade, em um trabalho que transborda tes- tosterona, o que poderia ser mais natural do que procurar um pouco de alívio com a ajuda de uma mulher? Não era para mim. Embora alguns dos meus colegas saíssem e até mesmo se casassem com as moças do lugar, enquanto estávamos ser- vindo em Wurzburg, ouvi histórias suficientes para saber que esses casamentos raramente funcionavam. O militar é duro nos relacionamentos em geral – tinha visto divórcios demais para saber disso – e, embora a ideia de ter alguém especial não me incomodasse, isso nunca aconteceu. Tony não conseguia entender.
“Você tem que sair comigo”, ele dizia. “Você nunca vem.” “Não estou a fim.” “Como pode você não estar a fim? Sabine jura que a ami- ga dela é deslumbrante. Alta, loira e ama tequila.” “Leva o Don. Tenho certeza de que ele quer ir.” “Castelow? De jeito nenhum. Sabine detesta ele.” Eu não disse nada. “Nós só vamos nos divertir um pouco.” Balancei a cabeça, pensando que preferiria estar só a ter uma recaída e voltar ao passado, mas acabei me questionando se não me tornaria tão solitário como meu pai. Convencido de que não poderia me fazer mudar de ideia, Tony nem tentava esconder sua decepção a caminho da rua. “Às vezes, não te entendo.” Quando meu pai foi me buscar no aeroporto, não me reconheceu à primeira vista, e quase deu um pulo quando toquei em seu ombro. Ele parecia menor do que eu me lembrava. Em vez de me dar um abraço, estendeu-me a mão e perguntou sobre o voo, mas nenhum dos dois sabia o que dizer depois disso, e então fomos embora. Era estranho e desorientador estar em casa, e me senti no limite, como na primeira licença. No estacionamento, após jogar minhas coisas no porta-malas, notei um adesivo pedindo apoio às nossas tropas na traseira do antigo Ford Escort do meu pai. Não tinha certeza do que aquilo significava para o meu pai, mas ainda assim, fiquei feliz por vê-lo.
Em casa, coloquei minhas coisas no meu antigo quarto. Tudo estava como eu me lembrava, até os troféus empoeirados na estante e a meia garrafa de uísque Wild Turkey no fundo da minha gaveta de cuecas. A mesma coisa no resto da casa. A manta ainda cobria o sofá, a geladeira verde parecia gritar que não pertencia àquele lugar, e a televisão sintonizava mal apenas quatro canais. Ele fez espaguete; sexta-feira foi sempre dia de espaguete. No jantar, tentamos conversar. “É bom estar de volta”, disse eu. Ele sorriu brevemente. “Bom”, respondeu. Tomou um copo de leite. No jantar, sempre bebeu leite. Concentrou-se em sua refeição. “Você lembra do Tony?”, arrisquei. “Acho que falei dele nas minhas cartas. Bom, olha só, ele acha que está apaixonado. O nome dela é Sabine, e ela tem uma filha de seis anos. Eu avi- sei que pode não ser uma boa ideia, mas ele não me ouve.”
Ele espalhou cuidadosamente o queijo parmesão ralado sobre o macarrão, garantindo que a quantidade e a distribuição fossem perfeitas. “Ah”, disse ele. “Ok.” Depois disso, continuei comendo e nenhum de nós disse mais nada. Bebi leite. Comi um pouco mais. Os ponteiros do relógio na parede avançavam. “Aposto que você está animado para se aposentar este ano”, sugeri. “Imagine só, você pode finalmente tirar férias, ver o mundo.” Quase disse que ele poderia ir me visitar na Alemanha, mas não o fiz. Sabia que ele não iria e não queria colocá-lo em uma situação difícil. Enrolamos o macarrão no garfo simultaneamente, enquanto ele parecia ponderar qual seria a melhor resposta. “Não sei”, ele disse finalmente.
Desisti de tentar conversar, e a partir de então os únicos sons vinham do bater de nossos garfos no fundo dos pratos. Quando o jantar terminou, nos separamos. Esgotado do voo, fui para a cama, acordando de hora em hora, assim como acontecia na base. Quando me levantei pela manhã, meu pai já tinha saído para trabalhar. Tomei café, li o jornal e tentei entrar em contato com um amigo, sem sucesso. Então peguei minha prancha de surfe na garagem e me mandei para a praia. As ondas não estavam grandes, mas tudo bem. Eu não subia na prancha havia três anos, estava um pouco enferrujado, mas mesmo a marola me fez desejar estar servindo perto do oceano.
Era o início de junho de 2000, a temperatura já estava quente e a água, refrescante. De cima da prancha, vi um grupo de pessoas carregando malas para uma das casas além da duna. Como já disse, a praia de Wrightsville sempre foi cheia de fa- mílias que alugavam casas por uma ou duas semanas, mas, às vezes, quem vinha passar a temporada eram universitários de Chapel Hill e Raleigh. Esses últimos me interessavam, e notei um grupo de estudantes de biquíni tomando sol no deck dos fundos de uma casa próxima ao píer. Observei-as um pouco, apreciando a vista, depois peguei outra onda e passei o resto da tarde perdido em meu próprio mundinho.
Pensei em dar uma passada no Leroy, mas percebi que nada nem ninguém havia mudado, exceto eu. Em vez disso, peguei uma garrafa de cerveja da loja da esquina e fui sentar-me no píer para apreciar o pôr-do-sol. A maioria dos pescadores já tinha ido embora, e os poucos que restavam limpavam seus peixes e despejavam os restos na água. Com o tempo, a cor do mar passou de cinza ferro para laranja e depois amarelo. Na arrebentação para além do píer, via-se pelicanos sobre as costas dos golfinhos que ziguezagueavam através das ondas. Sabia que era a primeira noite de lua cheia; meu período em campo tornara essa percepção quase instintiva. Não pensava muito em nada, apenas deixava minha mente vagar. Acredite em mim, encontrar uma garota era a última coisa que passaria pela minha cabeça. Foi quando a vi caminhando até o píer. Ou melhor, duas garotas passeando. Uma era alta e loira; a outra, uma morena atraente, ambas um pouco mais novas do que eu. Universitárias, provavelmente. Ambas usavam shorts e camisetas, a morena carregava uma grande bolsa de tecido, que às vezes as pessoas levam para a praia quando pretendem passar horas com as crianças. Eu as ouvia rindo e conversando, parecendo despreocupadas e em clima de férias. “Ei”, eu disse quando elas se aproximaram. Não foi nada sedutor, e não posso dizer que esperava alguma resposta. A loira confirmou minha suspeita. Deu uma olhada na minha prancha e na cerveja em minhas mãos e me ignorou virando os olhos. A morena, no entanto, surpreendeu-me. “Olá, estranho”, respondeu sorrindo. Ela apontou para minha prancha. “Aposto que as ondas estavam ótimas hoje.” O comentário dela me pegou desprevenido, e percebi uma gentileza inesperada em suas palavras. Ela e a amiga se- guiram até o fim do píer, e continuei observando, enquanto ela se inclinava sobre o parapeito. Hesitei se devia ou não me aproximar e me apresentar, e acabei desistindo. Elas não faziam o meu tipo ou, mais precisamente, eu não devia fazer o tipo delas. Tomei um longo gole da minha cerveja, tentando ignorá-las. Porém, por mais que tentasse, não conseguia parar de olhar para a morena. Tentei não ouvir o que as duas meninas diziam, mas a loira tinha uma dessas vozes impossíveis de ignorar. Ela falava sem parar sobre um cara chamado Brad e o quanto ela o amava, e como sua fraternidade era a melhor da UNC, e que sua festa de final de ano foi a melhor de todos os tempos, e que a outra deveria entrar para a fraternidade no ano seguinte, e que muitas de suas amigas estavam ficando com o pior tipo de rapazes de fraternidade, e uma delas até ficou grávida, mas foi culpa dela, já que tinha sido avisada sobre o cara. A morena não falava muito – não dava para saber se estava interessada na conversa ou entediada, mas de quando em quando dava uma gargalhada. Outra vez ouvi algo gentil e afetuoso em sua voz, algo que dava uma sensação de conforto, o que, admito, não fazia o menor sentido. Coloquei minha cerveja de lado e notei que ela havia colocado a bolsa sobre o parapeito. Elas estavam lá fazia mais ou menos dez minutos quando dois caras surgiram no píer – rapazes da fraternidade, imaginei – usando polos Lacoste rosa e laranja e bermudas no comprimento dos joelhos. Meu primeiro pensamento foi que um dos dois deveria ser o tal Brad de quem a loira falava. Os dois carregavam cervejas e ficaram mais cuidadosos ao se aproximarem, como que pretendendo assustar as meninas. Provavelmente as garotas ficariam felizes em vê-los e, depois de um susto seguido por gritinhos e tapinhas, os quatro voltariam para casa juntos, rindo, fazendo graça ou qualquer outra coisa que casais de universitários fazem. Poderia ter acontecido exatamente isso, pois os rapazes fizeram o que eu antecipara. Assim que se aproximaram, pularam para cima das meninas com um berro, elas gritaram e distribuíram tapinhas. Mais gritinhos, e o polo-rosa derramou um pouco de cerveja. Ele se encostou no parapeito, perto da bolsa, pernas cruzadas, braços para trás. “Ei, vamos acender a fogueira daqui a pouco”, disse polo-laranja abraçando a loira. Ele beijou o pescoço dela. “Vocês estão prontas para voltar?” “Você está?”, a loira perguntou para a amiga. “Claro”, respondeu a morena. Polo-rosa se afastou do parapeito, mas sua mão acabou batendo na bolsa, que escorregou e caiu lá embaixo. O splash soou como um peixe pulando. “O que foi?”, ele perguntou, virando-se. “Minha bolsa!”, a morena engasgou. “Você derrubou.” “Desculpe”, ele disse, sem parecer particularmente desolado. “Minha carteira estava lá!” Ele franziu a testa. “Eu disse que sinto muito.” “Você tem que pegar antes que afunde!” Os rapazes da fraternidade pareciam congelados, e eu sabia que nenhum dos dois tinha qualquer intenção de saltar para recuperar a bolsa. Por um lado, eles provavelmente não conseguiriam, e depois teriam de nadar até a praia, o que não é recomendável quando se bebeu tanto quanto eles obvia- mente haviam bebido. Acho que a morena também percebeu isso, pois a observei colocar as duas mãos sobre o parapeito e erguer um dos pés. “Não seja idiota. Já era”, disse polo-rosa, erguendo as mãos para impedi-la. “É perigoso demais para pular. Pode haver tubarões lá embaixo. É só uma carteira. Compro uma nova para você.” “Eu preciso daquela carteira! Todo o meu dinheiro está lá!” Não era da minha conta, eu sabia. Mas a única coisa que passou pela minha cabeça quando levantei de um salto e corri para a beira do píer foi: “Ah, que se dane...”
